A Espátula

7 ago

espátulaAs mães deveriam abolir o uso da espátula na hora de fazer um bolo.
Há cerca de uma semana venho pensando nisso, desde o dia em que me aventurei a preparar um bolo de chocolate – que, aliás, não deu certo. Nada se compara a um bolo com sabor de memórias, daqueles com cheiro e gosto de infância, que exigem as mãos hábeis de uma mãe ou de uma avó. Mas, até onde sei nunca, a presença de uma espátula.
Tenho boas lembranças dos tempos de infância, quando, em um dia frio, insistia com minha mãe pra que ela fizesse um bolo. De chocolate, claro, porque, naquele tempo, qualquer outro sabor soaria absurdo. E pra ser sincera, não havia nada de diferente no meu bolo favorito, nem recheio, nem cobertura: apenas a massa assada no forno, que eu gostava de saborear ainda quente. Pra mim, essa ainda é a melhor maneira de provar a guloseima.
Mas ainda não expliquei minha implicância com a espátula…
Minha infância foi como a de muita gente: simples, sem brinquedos caros ou videogame, sem TV a cabo e sem dinheiro. Talvez por isso algumas coisas que passavam despercebidas para alguns tivessem tanta importância pra mim: fazer bolinhas de sabão usando os bobes da minha mãe, criar bonecos com prendedores de roupa com se fossem peças de lego e, claro, acompanhar de perto os longos quinze minutos do preparo de um bolo.
Não tínhamos em casa nenhum aparato de cozinha além da geladeira, do fogão e do liquidificador, logo, todo o processo de preparo era feito a mão. Até hoje temos o batedor espiralado que minha mãe usava para deixar as claras em neve. As gemas dos ovos eram batidas com um garfo, uma habilidade que, infelizmente, não herdei. Medidores também não faziam parte do processo: até hoje minha mãe mede com os olhos a quantidade dos ingredientes, deixando admirado qualquer um que a observe. E sempre dá certo.

batedor

O batedor de ovos aqui de casa: mais velho do que eu.

Confesso que embora fosse maluca por um bolo de chocolate, não era adepta à função de assistente de cozinha. Bater os ovos com aquela “ferramenta espiralada” me deixava de braços doloridos, desculpa que nunca colou muito bem, e eu, sinceramente, não consigo misturar o açúcar em um copo no sentido horário, quanto mais a massa de um bolo. Entretanto, havia ali uma troca: eu tinha de participar do processo se quisesse aproveitar as sobras de massa que ficavam na tigela, algo que, pra mim, era melhor até mesmo do que saborear o próprio bolo. Tive a sorte de, ao longo da minha infância, adolescência e parte da vida adulta, a espátula não fazer parte da brincadeira.
Na semana passada, quando arriscava fazer o tal bolo, encontrei a espátula na gaveta. Coloquei-a entre as ferramentas de trabalho e pus mãos à obra, me dando conta, a cada passo, de que realmente não tenho talento na cozinha. Quando finalmente terminei de preparar a massa e a colocava na forma, com o auxílio da espátula, tive um déjà-vu. Momentos felizes da minha infância, muitos dos quais eu nem sequer me lembrava, vieram à mente, como se tivessem acontecido no mês passado, não mais de vinte anos atrás. Vi a mim mesma com o semblante satisfeito, rosto grudento, mãos meladas e um esforço deliberado para retirar da tigela aquele restinho de massa que – hoje sei – minha mãe propositalmente deixara para trás. Pensei nas poucas vezes que minha sobrinha mais velha, hoje com 18 anos, pôde aproveitar um momento como este, e no fato de que minha sobrinha caçula, de 3 anos, ainda não teve essa oportunidade. É claro que elas terão suas próprias lembranças da infância. No entanto, se depender de mim, o uso da espátula não será uma tradição passada às próximas gerações.