Quem é o seu amante?

25 abr

Recebi este texto do Bruno Giacometti, um amigo das antigas. Achei excelente e resolvi compartilhar com os amigos. Divirtam-se!

Quem é o seu amante?

Jorge Bucay – Psicólogo

“Muitas pessoas têm um amante e outras gostariam de ter um. Há também as que não têm e as que tinham e perderam”.

Geralmente, são essas últimas que vem ao meu consultório, para me contar que estão tristes ou que apresentam sintomas típicos de insônia, apatia, pessimismo, crises de choro, dores etc. Elas me contam que suas vidas transcorrem de forma monótona e sem perspectivas, que trabalham apenas para sobreviver e que não sabem como ocupar seu tempo livre. Enfim, são várias as maneiras que elas encontram para dizer que estão simplesmente perdendo a esperança.

Antes de me contarem tudo isto, elas já haviam visitado outros consultórios, onde receberam as condolências de um diagnóstico firme: “Depressão”, além da inevitável receita do antidepressivo do momento.

Assim, após escutá-las atentamente, eu lhes digo que não precisam de nenhum antidepressivo; digo-lhes que precisam de um AMANTE!!!

É impressionante ver a expressão dos olhos delas ao receberem meu conselho. Há as que pensam: “Como é possível que um profissional se atreva a sugerir uma coisa dessas?!” Há também as que, chocadas e escandalizadas, se despedem e não voltam nunca mais. Àquelas, porém, que decidem ficar e não fogem horrorizadas, eu explico o seguinte: “AMANTE” é aquilo que nos “apaixona”, é o que toma conta do nosso pensamento antes de pegarmos no sono, é também aquilo que, às vezes, nos impede de dormir.

O nosso “AMANTE” é aquilo que nos mantém distraídos em relação ao que acontece à nossa volta. É o que nos mostra o sentido e a motivação da vida. Às vezes encontramos o nosso ”AMANTE” em nosso parceiro, outras, em alguém que não é nosso parceiro, mas que nos desperta as maiores paixões e sensações incríveis.

Também podemos encontrá-lo na pesquisa científica ou na literatura, na música, na política, no esporte, no trabalho, na necessidade de transcender espiritualmente, na boa mesa, no estudo ou no prazer obsessivo do passatempo predileto…

Enfim, é “alguém!” ou “algo” que nos faz “namorar a vida” e nos afasta do triste destino de “ir levando”.

E o que é “ir levando”?  Ir levando é ter medo de viver. É o vigiar a forma como os outros vivem, é o se deixar dominar pela pressão, perambular por consultórios médicos, tomar remédios multicoloridos, afastar-se do que é gratificante, observar, decepcionado, cada ruga nova que o espelho mostra, é se aborrecer com o calor ou com o frio, com a umidade, com o sol ou com a chuva.

Ir levando é adiar a possibilidade de desfrutar o hoje, fingindo se contentar com a incerta e frágil ilusão, de que talvez possamos realizar algo amanhã*. Por favor, não se contente com “ir levando”; procure um amante, seja também um amante e um protagonista… DA SUA VIDA!

Acredite: O trágico não é morrer, afinal a morte tem boa memória, e nunca se esqueceu de ninguém. O trágico é desistir de viver… Por isso, e sem mais delongas, procure um amante…

A psicologia, após estudar muito sobre o tema, descobriu algo transcendental:

“PARA ESTAR SATISFEITO, ATIVO E SENTIR-SE JOVEM E FELIZ, É PRECISO NAMORAR A VIDA”.

Caminhos mais longos podem indicar novos atalhos

12 abr

Às vezes é preciso dar um passo para trás para dar dois à frente.

Faz alguns dias que estou com essa frase na cabeça, resultado de semanas – talvez meses – de autoavaliação. Muitas coisas mudaram nos últimos quatro meses, exceto uma: o desejo de ser jornalista.

A primeira mudança ocorreu cerca de seis meses atrás, quando decidi pôr um fim à minha carreira na empresa em que atuava. Abri mão da estabilidade, de um salário que, de certa forma, era bom, para correr alguns riscos. E todas as experiências, das melhores às piores, resultantes dessa decisão valeram a pena.

Consegui ingressar em uma agência de publicidade onde, mesmo sem ter concluído minha formação, consegui o cargo de jornalista. Abracei a oportunidade com unhas e dentes e dei o melhor de mim. Mudei de horário na faculdade, abandonei meu maravilhoso grupo de trabalho, perdi o contato com bons amigos e mergulhei fundo na nova travessia.

A transição não foi simples. Apesar de ter certo domínio da língua escrita, eu era completamente “crua” para criar textos publicitários, embora de cunho jornalístico. Levou algum tempo até que eu pegasse o jeito, mas acredito ter desempenhado um bom trabalho. E consegui o que eu queria: montar meu portfólio.

Mas mediante alguns problemas que a empresa vinha enfrentando, optei por voltar ao mercado. Sim, como muitos eu não só quero, como procuro a estabilidade. No entanto, também continuo acreditando que dar um passo atrás para dar dois à frente é muito, mas muito melhor do que a acomodação.

E persistente como sou, tenho fé que em breve, não só eu, como todos os meus amigos, muitos dos quais também mudaram de área abruptamente, conquistarão aquilo que desejam. Se falta muito? One step at a time, there’s no need to rush!

Preconceito

20 dez

Cresci em uma época em que o padrão, segundo a mídia, era a mulher branca – preferencialmente loira. Uma das principais figuras da minha infância, embora não a favorita, foi a apresentadora Xuxa, cujas assistentes, as Paquitas, por muitos e muitos anos foram apenas loiras.

– Quem disse que toda Paquita nasceu loira?

Esse era mais ou menos o slogan de uma linha de tinturas estrelada pelas Paquitas, algumas da primeira geração de morenas, que tingiram seus cabelos para demonstrar mais uma vez esse padrão.

Eu sempre me senti meio excluída em meio a esse universo.

E não era só. A indústria de brinquedos também parecia ter um padrão de bonecas brancas e, na maioria, loiras. Eu olhava para minhas bonecas e não me sentia a “mamãe” delas. Na época, não pensava em dar um pai a elas, então achava que deveriam parecer comigo. Uma tristeza só…

Eu me sentia rebaixada pela minha cor, pela minha aparência. E crianças, nós sabemos, são sinceramente cruéis. Elas repetem chavões, frases que ouvem dos mais velhos, valem-se de padrões preestabelecidos para julgar os colegas, quando não recebem orientação adequada dos pais. Assim, havia toda a sorte de apelidos para uma menina negra e de cabelos crespos, e com isso a autoestima da criança vai lá pra baixo.

Contudo, aprendi, ao longo dos anos, a me valorizar. Aceitar-me como sou foi um passo difícil, mas que, com o tempo e o amadurecimento, aconteceu. Também entendi que muitas pessoas e empresas não enxergam a cor da pele ou dos cabelos como um requisito importante quando da contratação. Entendi que a “boa aparência” está ligada a uma pessoa bem vestida e asseada e que as habilidades e conhecimentos fazem toda a diferença em um processo seletivo.

Embora tenha passado, e de vez em quando ainda passe, por alguns constrangimentos em virtude das minhas origens, acredito que os olhos do mundo estejam mudando. Inclusive os das empresas. Há, porém, as exceções. Ao que me parece, algumas empresas estão com décadas de atraso.

Uma das coisas que me deixa curiosa são as pesquisas da área de marketing nas quais algumas organizações se baseiam. Por exemplo, existe alguma pesquisa que diga que um comprador de joias prefere ser atendido por uma loira, mas, na hora de realizar o pagamento, por uma morena?

Vamos aos fatos.

No último sábado, fui a uma loja de joias comprar um presente de Natal – um relógio para o meu pai. Logo na entrada, observei que todas as atendentes eram loiras. Entrei, comprei o presente, fiz o orçamento de outro e fui pagar. Notei, então, que a moça no caixa era morena. Coincidência? Não acredito.

No domingo, voltei à loja para comprar o produto que cotei no dia anterior. Observei que havia vendedoras diferentes das que estavam no sábado, embora fossem, obviamente, loiras. No caixa, também não estava a moça do sábado. Contudo, esta, como aquela, era morena.

Quer dizer que a loira não inspiraria confiança se estivesse no caixa? A morena não apresentaria o produto com a mesma segurança da loira?

Pergunto: é coisa do lojista? É pesquisa de mercado? Preconceito? Não sei. Só sei que esse padrão não me agradou e me levou de volta à adolescência.

Anos atrás, fiz um curso vinculado ao Rotary Club, por meio do qual consegui um estágio. Quando este terminou, fui ao escritório do Camp Metropolitano entregar alguns documentos e, na hora, a gerente de RH me encaminhou a um teste e uma entrevista. Eu estava com 17 anos e precisava ganhar uns trocos para bancar meu cursinho. Então fui.

Cheguei sem os documentos necessários, mas como a empresa sabia a maneira como fui encaminhada, permitiu que eu participasse da entrevista e dos testes. Uma vez na sala de entrevistas, curiosa como sou, observei sobre a mesa a ficha que havia preenchido na chegada. No lugar da foto, havia a seguinte informação: Nota – 6 (negra).

Tive vontade de chorar. Mas mantive a postura. Saí da sala e participei da dinâmica em grupo. Então, as coisas mudaram. E consideravelmente. A mesma pessoa que me deu nota 6 por aparência rasgou-se em elogios a respeito da minha performance na dinâmica. Eu tinha vontade de gritar, embora não soubesse exatamente quais palavras. Queria sair dali a todo custo.

Por mais de dois meses, aquele homem tentou me contratar como estagiária. Todas as ligações foram atendidas pela minha mãe, para quem ele me elogiava e dizia que eu tinha muito a crescer na empresa. Ela, ciente do acontecido, dizia que não autorizava a realização desse estágio porque minha prioridade era entrar na faculdade. Era verdade, mas ela escondia o fato de que eu não aceitaria trabalhar para uma pessoa que me julgou de maneira tão preconceituosa. A experiência foi ruim, mas me fez crescer.

Em um país em que mais da metade da população é negra, acho um disparate ver que alguns estabelecimentos ainda se baseiam na cor da pele ou dos cabelos para contratar um profissional. A pele é apenas um invólucro; os cabelos são formados, em sua maior parte, por células mortas. Não é a etiqueta da roupa que mostra a idoneidade de uma pessoa – aliás, os maiores bandidos do nosso país são os do colarinho branco.

Tenho origem negra, indígena e portuguesa. Sou negra, filha de nordestinos. Estudo, trabalho, consumo, pago impostos. E não vou deixar ninguém me diminuir por características das quais tenho orgulho. Não mais.

E você?

Por fim, o fim!

15 dez

Acabou. Em todos estes anos de estudo, posso dizer que nunca vivi um semestre tão apertado – e olhem que eu cursava uma disciplina a menos que a maioria dos meus colegas. Mas ele finalmente terminou.

Sou a típica aluna caxias. Apesar de ser adepta do fundão, frequento as aulas, faço mais anotações do que o necessário (mas só depois percebo a quantidade de besteiras de que tomei nota), sou participativa – e encrenqueira, em alguns momentos – e, como resultado, espero boas notas. Não é sempre que elas vêm, mas quando chegam, sinto um alívio sem igual.

E neste semestre as exigências foram maiores. Finalmente entramos em uma parte mais prática do curso, que, apesar de divertir e nos integrar ainda mais à carreira, foi bastante trabalhosa. Por sorte, contei com a presença e a colaboração dos meus parças, César e Felipe, que aguentaram meus surtos e lamentos e sem os quais, tenho certeza, os trabalhos não teriam o resultado que tiveram (valeu, meninos!).

Felipe, eu e César

As últimas notas e faltas saíram hoje. O conceito foi maior do que eu esperava, mas corresponderam ao que eu desejava. Enfim, com a média ainda lá no alto, sinto-me livre e realmente de férias – apesar de ter a Iniciação Científica para desenvolver em janeiro, mas isso se a faculdade colaborar.

Agora, poderei ter vida social de novo. Curtir o namorado, os amigos, tuitar e falar muuuuuuuuuito no MSN com a galera dos RPGs. Ah, e tomar muito sol na moleira, porque não sou de ferro! ;)

Passividade

8 dez

Hoje foi o último dia de aula e a turma teve de apresentar seus projetos integradores. Algumas coisas que já vinham sendo discutidas foram agravadas durante esta manhã. Então, alguns alunos optaram por dar um basta na situação. Outros, por sua vez, apesar de tecerem comentários concordantes com a questão, optaram por ocultar-se. Alguns nem sequer se manifestaram. Espero que estes estejam satisfeitos com o andamento da “coisa”, afinal, às vezes a omissão é tão grave quanto o crime.

Pensando nisso, peguei um texto que havia lido alguns dias atrás a respeito da passividade. Espero que os colegas leiam e apliquem alguns de seus conceitos, não somente em questões acadêmicas, mas no dia a dia.

PASSIVIDADE – ACOMODAÇÃO

Por: Márcia Homem de Mello – Psicóloga e Psicodramatista

A atividade e passividade, assim como outros termos que se fazem opostos como, masculino e feminino, fálico e castrado e sadismo e masoquismo, podem determinar um tipo de comportamento.

Definem também tipos de metas ou objetivos pulsionais. Um modelo de meta, pode ser o de corresponder a pulsão oral, que será satisfeita com a atividade de sucção.

A passividade de uma meta pode ser observada por exemplo, em indivíduos que desejam ser maltratados (masoquismo) ou ser visto (exibicionista). A fim de se posicionar para obter satisfação, o indivíduo comporta-se assumindo estar a mercê do outro. Toda posição passiva é inseparável do seu oposto.

O masoquismo é um sadismo voltado contra a própria pessoa. Corresponde a um retorno sobre a própria pessoa e ao mesmo tempo a uma inversão da atividade em passividade.

Ruth Mack Brunswick(1) mostra que desde criança começa a relação passiva com a mãe que satisfaz todas as necessidades. Na mãe ativa pode estar a identificação da atividade.

Victor Dias(2) comenta que por volta dos 3 anos, a criança já tem instalado o processo de busca. A falta desse processo de busca e da angústia, gera o acomodamento psicológico.

As sensações de medo, insegurança e incompletude podem gerar um processo de busca e o aparecimento da angústia patológica. A fim de evitar o sentimento desta angústia, que é a ameaça de conteúdos inconscientes bloqueados, o psiquismo vai buscar justificativa nas defesas intrapsíquicas. Assim o indivíduo diminui o processo de busca e a angústia patológica relacionada.

Há a fase do acomodamento psicológico, na qual o indivíduo – apesar de ter seus bloqueios do desenvolvimento psicológico com todas as conseqüências daí advindas – consegue ficar compensando com pouca angústia. É a fase em que vivem a maioria das pessoas.

Acrescentando o conceito de inibido quanto a meta, que é o que qualifica uma pulsão que, sob o feito de obstáculos externos ou internos, não atinge o seu modo direto de satisfação (ou meta) e encontra uma satisfação atenuada em atividade ou relações que podem ser consideradas como aproximações mais ou menos longínquas da meta primitiva.

A compensação da angústia patológica e o abrandamento do processo de busca fazem com quem as pessoas consigam cumprir parte de suas necessidades internas e uma parte das exigências sociais a que estão submetidas.

É um equilíbrio instável, mas um equilíbrio que pode ser bem satisfatório e durar até a vida toda.

Note que a transformação do sadismo em masoquismo, não implica simultaneamente a passagem da atividade à passividade e uma inversão dos papéis entre aquele que inflige e o que é vítima de sofrimentos.

Com a noção de sadomasoquismo, na qual o conflito psíquico e sua forma central, o conflito edipiano, podem ser compreendidos como um conflito de exigências, pois a posição de quem exige é virtualmente uma posição de perseguido-perseguidor, porque a medição da exigência introduz necessarimente as relações sadomasoquistas do tipo dominação-submissão que toda a interferência do poder implica.

Um dos mecanismos de defesa são os Vínculos Compensatórios. São vínculos que o indivíduo vai criando, que o ajudam a estabilizar-se, apesar da sua falha de desenvolvimento psicológico. Podem ser: casamento, uma amizade, um emprego, um relacionamento com a cidade,… Rotinas de vínculos que de alguma maneira ajudam esse individuo a ter uma noção, embora  externa, da sua própria identidade. Por ex., um time de futebol. Ser corinthiano passa a ser, de repente, uma identidade e não apenas o participante da torcida de um time.

Então, diz-se que o individuo com mecanismos reparatórios oriundos da estrutura intrapsiquica, com exarcebação do psiquismo organizado e diferenciado e uma série de vínculos compensatórios, entra numa fase de acomodamento, isto é, consegue uma estabilização psicológica, onde consegue produzir e levar sua vida.

Estabelecer vínculos compensatórios com pessoas, animais, coisas, situações, filosofias, religiões, etc. que de alguma forma lhe assegurem uma identidade, que embora não seja a sua verdadeira, passa por lhe produzir uma sensação de existir mais palpável. Os vínculos compensatórios têm uma finalidade bastante grande pois permitem freqüentemente, que o individuo se organize e se estruture na vida. Por outro lado, o indivíduo fica preso ao vinculo compensatório pois depende dele para ter sua identidade mais completa.

Diante do que foi aqui exposto, é interessante avaliar que comportamento vem exercendo durante a vida. Porque sempre é tempo de promover modificações, caso sinta vontade de mudar. Sair da passividade ou acomodação, podem lhe trazer uma nova visão, ou novos objetivos de vida.

Bibliografia: – Vocabulário de Psicanálise, Laplanche e Pontalis

(1)The Proedipal Phase of the Libido Development, 1940

(2) Análise Psicodramática – Teoria da Programação Cenestésica; Psicodrama – Teoria e Prática

Texto extraído de http://www.homemdemello.com.br/psicologia/passacomod.html

Por que viver dói tanto?

24 nov

Viver dói.

Acho que é por isso que os bebês choram desesperadamente quando deixam o ninho. Sabem que toda a proteção em que estavam envolvidos acabara de ser desfeita, e que aquela mistura de luzes e cores e vozes e cheiros nada mais é do que uma perigosa armadilha.

Cada suspiro é um passo à frente em meio a um caminho tortuoso que se chama vida. Mas eles ainda não sabem disso. Apegam-se àquele cheiro conhecido – o da mãe – porque é disso que, a partir de agora, sua vida depende. Alguém sempre terá de olhar por ele. E alguém sempre tem de olhar por nós todos.

Não se trata de crer ou não em Deus, na Deusa, em uma força maior ou de ser um ateu assumido. As crenças são importantes, mas não acredito que apenas com elas seja possível enfrentar um corredor de navalhas. Nem sempre as crenças suturam os ferimentos. É preciso alguém que saiba ao menos fazer um simples curativo, ainda que, no final, restem cicatrizes profundas. As cicatrizes são marcas de uma vida efetivamente vivida. E geralmente são deixadas por sonhos, desejos, atitudes e indecisões.

Uma lágrima contida é reflexo de uma dor que se quer ocultar. Um sorriso tímido pode revelar a dor do medo. A alegria não é necessariamente a negação da dor. Ela está lá, mas é momentaneamente ignorada em nome de alguns instantes de deleite. Mas a dor tende a voltar em breve, na forma das preocupações do dia a dia, dos temores cotidianos, dos amores condenados ao exílio de coração.

Viver dói. Mas quem disse que a dor não traz em si a cura?

Quanto custa um amigo?

8 nov

Invejo as relações que meu pai construiu ao longo da vida.

Ele não é a pessoa mais sociável do mundo. Ao contrário, às vezes chega até a ser carrancudo. Mas o respeito que as pessoas têm por ele me desperta orgulho. Ano que vem, meu pai completará 60 anos. E mantém amizades que já duram mais de 50.

Sempre me pergunto se terei a oportunidade de construir relações assim. Como ele, não sou uma pessoa fácil de lidar. Tenho gênio forte, sou criteriosa e não aceito que se firam princípios básicos da boa convivência. Em resumo, sou vista por muitos como uma pessoa intolerante. E talvez, com alguns, eu realmente seja.

Há, no entanto, aqueles que me despertam simpatia imediata. Existem também aqueles que me conquistam com gestos diários, que, ainda que não se dirijam a mim, mostram quanta luz cada uma dessas pessoas têm. Algumas vezes, basta um sorriso de uma dessas pessoas para transformar meu dia. Ultimamente, porém, algumas coisas vêm se desequilibrando.

Meu círculo social é bastante restrito. Tenho poucos e bons amigos, nos quais confiaria a minha vida, se fosse preciso. Alguns convivas, por outro lado, apesar de trazer um papo agradável, venderiam meu fígado em troca de um degrau a mais na escala social – não que meu fígado o valha, mas alguns perderam os escrúpulos em uma troca de fraldas. O interessante é que sempre apresentam as mesmas características: alegres, faladores, às vezes recém-chegados, mas loucos por integrar-se o mais rapidamente possível e ser o melhor amigo de cada um do grupo.

Esses não passam disso. Convivas. Pessoas cuja presença, ao longo do tempo, tende a se tornar intolerável para uma pessoa como eu, “cheia de cinco minutos”. Às vezes leva tempo para que eu as reconheça. E embora algo me diga para não baixar a guarda, quando me dou conta da situação, o estrago já foi feito. Outras eu já as saco na hora, por isso, instintivamente, evito o contato. Ainda que seja um tipo de pré-julgamento, é uma proteção necessária para alguém que não quer magoar nem ser magoado.

Acho que na época do meu pai as coisas eram mais simples. Quando as pessoas não se gostavam, elas tinham razões quase que palpáveis, rusgas conhecidas por toda a sociedade ao redor. Nessa época, não se saíam leiloando pessoas a troco de um tiquinho de fama, de ser bem-quisto por um punhado de gente. Hoje, vivemos em um mundo multifacetado, em que são necessárias caras e bocas que garantam a boa convivência.

Não sei se elogio ou sinto pena daqueles que conseguem viver eternamente ocultos atrás de uma máscara de falsa tolerância. Mas não os invejo, mesmo que saber esconder-me em um meio-sorriso seja algo que exija muito trabalho – meus olhos firmes e a tensão nos meus ombros sempre vão me entregar.

Ainda que eu esteja bastante insatisfeita com situações recentes – o suficiente para escrever um post a respeito – ainda acredito que não há sucesso que valha o preço de uma boa amizade. Afinal, aquele que faz do outro escada, um dia também pode também ser o capacho.

Por ora, espero que as duas grandes amizades que mantenho há mais de 20 anos fiquem firmes para chegarmos aos 50. E que as que completarão essa idade aos meus 68 e 76 sustentem comigo o elo que nos mantém unidos. O desembarque do restante ao longo do caminho é apenas uma consequência do ato de viver.

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